Assim se perde o pé.

•Janeiro 24, 2011 • Deixe um Comentário

“A filosofia empreendeu o exame da diferença entre saber-se da existência de fileiras paralelas de montanhas para ocidente e saber que linhas paralelas estendidas até ao infinito nunca se encontram, a diferença entre saber-se que Sócrates era bom e saber-se o que era a bondade.”

– R. Rorty, A Filosofia e o espelho da Natureza, Lisboa, D. Quixote, 1988, p. 40.

como se fosse fácil

•Novembro 25, 2010 • Deixe um Comentário

“Philosophy is often a matter of finding a suitable context in which to say the obvious.” 

–  Iris Murdoch, “The idea of perfection”, in The sovereignty of good, Routledge, Nova Iorque, 2001, p. 32.

sem remédio

•Novembro 9, 2010 • Deixe um Comentário

“Our disease is one of wanting to explain.”

– Wittgenstein, Remarks on the Foundations of Mathematics (London, 1980, third edition), §31

Apesar de tudo,

•Março 6, 2010 • Deixe um Comentário

fácil, fácil…

•Março 6, 2010 • Deixe um Comentário

…de gostar.

•Março 6, 2010 • Deixe um Comentário

Carnaval no Fogo, Ruy de Castro

•Março 6, 2010 • Deixe um Comentário

Uma cidade é aquilo que nos faz. Há uns tempos li o livro que Ruy Castro escreve para a colecção O escritor e a cidade, onde retrata o Rio de Janeiro na sua vivência actual, mas remetendo ao passado da cidade como forma de explicar alguns dos seus traços e personagens mais marcantes (e convém lembrar que, no Rio, a música e o Carnaval devêm personagens). Gostei do retrato, apreciei o esforço, e fiquei sobretudo a conhecer muito sobre uma história que, em Portugal, raramente nos é contada; no entanto, dei por inverosímeis algumas das passagens, e julguei demasiado romanceada a aura da cidade. Depois fui lá. É por isso que digo – uma cidade é aquilo que nos faz.

 A mim fez-me sobretudo parar. Consoante as situações, parar para olhar, paralisar de medo, ou parar de pensar. Vejo a minha viagem sobretudo como um parêntesis. Independentemente do que me levou lá, lembro-me sobretudo de ter podido respirar. Não que se trate de uma cidade tranquila; pelo contrário, o bulício é constante, o trânsito monstruoso, as pessoas vivas no pleno sentido do termo. Mas é como uma explosão sem estrondo. Sente-se a vibração, o ardor e o calor, a vivacidade e a fúria; nada disso é contido, mas nada disso assusta, ou incomoda, antes se derrama sobre nós e nos invade. Passamos a fazer parte. Somos então tomados por uma doce bonomia, enleados numa lassidão vagarosa que é ao mesmo tempo revigorante, e, se não oferecermos resistência, podemos mesmo sentir-nos permeados pela leveza e joie de vivre dos nativos. Somos conquistados, sem que percebamos. Baixamos guardas, e deixamo-nos levar, enlevados.

 O livro chama-se Carnaval no fogo, mas se dedica algum espaço a explorar as origens e características únicas dessa festa por excelência carioca, elucidando-nos acerca da diferença entre sambas e marchinhas, cordões, ranchos ou blocos, é para depois sustentar uma tese mais abrangente – o Rio é, por natureza e definição, uma cidade provocadora e irreverente, desde os tempos da colonização; o fogo a que se refere é um fogo permanente, que não desaparece depois dos cinco dias de folia, mas que arde todo o ano. “O Rio peca por excesso de electricidade. E isso não é de hoje, nem de ontem. Vem desde o primeiro dia.” (29) Segue-se um relato bem-humorado, em alguns casos caricato, da chegada dos portugueses e demais colonizadores, e uma descrição do cenário que eles possivelmente terão encontrado (conta-se que muitos pensaram estar diante do paraíso terrestre), assim como dos indígenas que os receberam (e alude-se à tese segundo a qual foram os índios tupinambás que habitavam a baia de Guanabara que inspiraram a obra de muitos pensadores europeus, incluindo Rousseau e a sua teoria do “bom selvagem”). A ideia é mostrar que o “espírito carioca” vem de longe, foi forjado nos primeiros anos de vida do Rio.

 Fogosa e excitante, são, de facto, dois bons adjectivos que, mais do que adjectivar, servem sobretudo para nomear a cidade. Mas ela é mais do que isso – é perigosa. E não me refiro à tentativa de assalto, à proximidade assustadora dos morros, ou aos condutores perfeitamente loucos. Refiro-me sim ao que ela tem de tentador e corruptor e libertador (e não necessariamente libertino). Por mais bem intencionados que sejamos, acabamos corrompidos. Talvez seja o sol, o mar, e a água de coco em frente ao mar; ou será a luz, a alegria e a gentileza dos cariocas, e a música que nos agita e nos chama, à noite, em plena Lapa; seja pelo que for, é constante e premente o convite ao exercício dos sentidos. No ar o que se sente é uma liberdade sem norma, e uma sensação de possibilidade sem nome. Não importa o que tenhamos lá ido fazer, é impossível evitar o chope na esplanada, ou não acabar a mergulhar em Ipanema. Não é culpa nossa – mais uma vez, somos encadeados, e depois levados.

 É essa “cultura solar” do Rio de Janeiro que Ruy Castro quer, e consegue, revelar. É esse o traço distintivo da cidade. Claro que são explorados outros também – a mestiçagem, a heterogeneidade e a disparidade social e cultural, as contradições e desigualdades inerentes, a beleza natural…; e nem todos são pontos (totalmente) a favor. Mas o tom do livro é claramente laudatório, e é por isso o Rio na sua qualidade de lugar de culto de algo como uma filosofia do prazer que se quer pôr em relevo. É também nesse sentido que ele considera altamente improvável que aqui venha a surgir, algum dia, um filósofo de verdade (leia-se, um filósofo sistemático, na linha dos ingleses ou alemães), ou que “um dia, por qualquer motivo, alguém aqui se imole em protesto contra qualquer coisa – nenhuma causa vale tamanho sacrifício, particularmente se der praia no dia.” (136)   

 A verdade é que é uma cidade que se agarra à pele, como o calor húmido que lá se sente, e que deixa, quando se parte, uma espécie de sentimento de perda, mas sem saber ao certo o que se perdeu. Talvez seja a impossibilidade, de que nos damos conta assim que entramos no avião, de poder transportar o fogo connosco, e de poder ser “carioca” em outro sítio que não o Rio de Janeiro.